Sob má influência

Este texto foi publicado na Mood e no meu finado zine, o Conga Conga Conga – e rendeu uma sólida amizade com os sujeitos-alvo da matéria; rendeu uma penca de programações visuais e fotografias; rendeu uma penca de abraços. Se esse texto não é lá dos melhores, posso dizer que serei eternamente grata a ele, assim, tosquinho mesmo. Leiam aí.

Sob má influência

 

Outro dia achei um diário de quando eu tinha.. dez? Onze anos? Num dos posts, digo, numas das páginas, tinha a seguinte notinha: “Que legal! Meu primo Fábio tem o Sucesso do Inconsciente!”

É. Isso aí. Desde garotinha eu já era fã do rockabilly-mente-poluída de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, e o estrago que eles fizeram foi enorme, como vocês podem notar nos artigos que escrevo, nos posts que faço no meu weblog e no meu gosto musical. Boa parte das minhas referências vêm deles, e não ouso falar em “Lágrimas de Crocodilo” ou “Popstar”: Miquinhos, pra mim, era sinônimo de versões toscas, baixo nível de sanidade, falta de papas na língua e rock’n’roll.

Não sei precisar quando isso começou, mas certamente foi antes do “Merdley – S.O.S. Miquinhos”, aquela tosqueira sonora que misturava vários sucessos da Jovem Guarda e começava com a linha “estou amando loucamente/ uma lambisgóia que só tem dois dentes”, já que meu post, quer dizer, diário, é de 1988 e esse disco é de 1989. Não sei o que me atraiu – se foi o vídeo de “Ricota”, música de letra completamente insana, se foi o visual rocker do grupo, se foi a programação visual dos discos (a capa de “Além da Alienação” é assinada por Cláudio Paiva, que era do Planeta Diário – e antes de checar essa informação, isso era MUITO claro, aquelas imagens ‘vintage’ e as polaroids escrotonas da banda eram a cara do periódico humorístico mais freak dos anos 80), se foi o som que, pra uma criança metida a adulta, era legal porque nem era infantil e nem era pesado ou sério. Era na medida pra se divertir, pra aloprar as festinhas de família. Titãs, Rita Lee, Talking Heads, eu gostava porque meus pais ouviam – Miquinhos não, Miquinhos era MEU, eu pedi pra comprar o disco, era meu tipo de humor, meu tipo de som.

No começo, eu tinha o “Sucesso do Inconsciente. “Cantava “Cozinho de Noite” e minha mãe ficava horrorizada, ensinava “O Monstro Macho” pras amiguinhas da escola (depois conheci e pirei), reconheci “Johnny Pirou” do filme “De Volta Para O Futuro” (perdoem-me, mas aos 7 anos eu podia jurar que a música era do Marty McFly), adorei os topetes e as caras de bons-moços apesar das letras podronas, amei “A Surra”, “O Velho Tubarão” e “Menino Justiceiro”, muito mais do que “Matinê no Rian”, que tocava em todos os lugares. Eu queria rock. Droga, foram eles, eu sei.

Depois ganhei o “Cem Anos de Rock’n’roll”. Que mané “Suga-suga”, maior música de novela, o que me atraiu foi a capa, a piada monga do título (Cem anos? CEM ANOS??????), já reconheci as originais de “O Monstro” e de “Papa Umama”, me identifiquei totalmente com “O Bom e Velho Rock’n’roll”, adorei “O Escorpião Escarlate” (olha o trago, aos 12 ou 13 anos eu já ia ao cinema pra ver Ivan Cardoso, o filme é de 1983 mas passou no Cinema da UFF depois), tudo errado, tudo errado. Avellar Love, Selvagem Big Abreu e Bob Gallo já tinham virado influência maligna na minha coleção de discos, na minha lista de filmes prediletos, naquele quadro com dois topetudos e um Cadillac cor-de-rosa que eu tinha no quarto.

Quando eu devia ter uns 14 ou 15 anos, então, meu pai cometeu o crime de me levar no meu primeiro show-de-rock-fora-de-Niterói: Love & The Lovers, a banda de covers clássicas dos anos 50, capitaneada por Avellar Love, no Circo Voador. Crime sim, porque junto veio A Grande Trepada, Gangrena Gasosa e uma performance toscona do Zé do Caixão. A Lia que meus amigos conhecem já dava claros sinais de existência. Ferrou, sabe? Ferrou.

Daí foi só ladeira abaixo: consegui finalmente o vinil de “Além da Alienação” e, já com maturidade suficiente pra entender o quanto eles eram escrotos (é a melhor palavra pra definir), pude degustar com prazer o primeirão, “Os Grandes Sucessos de João Penca e Seus

Miquinhos Amestrados”, de 83, quando a banda eram oito caras (e por pouco Léo Jaime não era o nono miquinho), que tem participação de Ney Matogrosso cantando “Calúnias” (“Telma eu não sou gay”), que tem versão de “Teddy Bear” do Elvis (“Me deixa ser o seu ursinho” é tão pureza..) e de “In The Mood” (bicho, “O Edmundo” é a melô da perdeção de linha, é o popular sem-noção, é genial). Aqueles backings de doo-wop, aquelas letras toscas, a assinatura disléxica do Leandor na capa, os comentários do Avellar no meio de “O Sincero”, tudo foi fazendo sentido pra mim.

Veio “A Festa dos Micos”, coletânea ao vivo, já em cd, e finalmente consegui gravar o “Okay My Gay” em fita (no que serei eternamente grata ao meu amigo Carlos Augusto, uma vez que esse disco é muito difícil de achar). Puxei “Ricota” das minhas lembranças de infância e quase chorei quando ouvi (juro..), achei “Luau de Arromba” a melhor canção-tributo-ao-pop-nacional (ahn, ok, “Arrombou A Festa II”, da Rita Lee, também é genial e faz “Festa de Arromba” não parecer tão boa assim – lógico que “Festa da Música Tupiniquim”, do Pensador, e aquela outra do Lulu Santos não contam, hum?), “Universiotário”, “Cachet” (versão de “Heartbreak Hotel”, maravilhosa) e “Sou fã” (versão de “Sixteen Candles”, outra pérola) deixam os hits do disco (“Popstar” e “Lágrimas de Crocodilo”) no chinelo. Mesmo já tendo a discografia completa da banda, não me furtei de comprar a “Hot 20”, coletânea em cd, porque afinal eu precisava de material deles nesse formato pra botar em festinhas ou ouvir no trabalho – apesar dos não-hits, claramente as melhores músicas, terem ficado de fora.

Mas é que Miquinhos é Miquinhos (alô, concordância??), e se hoje eu sou assim, parte foi influência deles – ou será que comecei a gostar deles porque eu já era freak?. Se gosto de rockabilly ou de filmes trash ou dessa estética meio rock meio kitsch, tudo começou lá, aos 7 anos, quando ouvi “Ricota” pela primeira vez – e o primeiro registro escrito dessa paixão está lá, naquele diário de 1988, pra quem quiser conferir. A partir daí, foi só ladeira abaixo. E, na boa, eu só tenho a agradecer.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s