Eu quero gritar ‘gostoooosoooo!!’ pro David Lovering… e eu vou.

Pixies é uma de minhas bandas preferidas. Este texto também saiu no Zine Vanilli e tenta explicar o que faz uma banda tocar direto o coração de alguém.

Eu quero gritar ‘gostoooosoooo!!’ pro David Lovering…

…e eu vou.

Quando eu tinha uns treze anos, a gente não tinha essa facilidade toda de aquisição de informação, ainda mais em Niterói. A única loja de rock era a Fire Rock, minha mãe não permitia que eu saísse no Rio de Janeiro sozinha, eu era adolescente e a vida era legal mas estava se tornando entediante. Você nem deve mais se lembrar de quando gravar fitinhas para os amigos equivalia ao procedimento que hoje é conhecido como “passar teu nick no soulseek”, mas eu lembro, e funcionava assim: você ouvia um LP de vinil bacana na casa de um amigo, dava uma fita pra ele, e ele gravava o disco. Ao final, naquele meio lado B que sobrava, ele recheava com algumas músicas de alguma banda que você provavelmente não conhecia mas acabava gostando – e assim era a vida. Tínhamos a sorte de ter a Fluminense FM – “a única rádio rock do Rio” – mas, por algum motivo que me foge agora, eu só conseguia ouvir blues e reggae na Flu. Definitivamente não posso afirmar que cresci sob influência da Maldita, uma vez que as novidades eu via na Mtv, então um canal de tv aberta, e os clássicos me eram apresentados por amigos que certamente ouviam a Fluminense em horários melhores que os meus.

Então um dia eu estava entediada com tudo o que ouvia. Guns and Roses era muito mais ou menos, Nirvana era legal mas tinha dado no saco, tanto rockabilly quanto Ramones eram muito legais de se ouvir mas eu já estava enjoada de ouvir as mesmas coisas sempre. Estava musicalmente entediada. Tivesse eu escutado Joy Division naquela época, ou Cocteau Twins, talvez tivesse tomado rumos diferentes. Confesso que cheguei a ouvir Velvet Underground, mas só surtiu alguma emoção em mim anos depois – eles tinham uns sons meio experimentais, meio anos 60 demais, e em 92, eu precisava de rock puro, não do Velvet, que tem um pezinho no punk que eu amo, mas um pé no progressivo que eu tanto tenho preconceito – é que em 92 TUDO resolveu acontecer ao mesmo tempo, entende? Em 92, fiquei menstruada pela primeira vez, muito depois de todas as minhas amigas – eu já me achava uma anormal. No mesmo ano, beijei na boca pela primeira vez (foi uma história fofa que envolveu mãozinha dada na escola durante uma semana, longe dessa putaria adolescente de hoje). Naquele fim de ano de 1992 para 1993 eu quis pintar o cabelo de verde, mas não era fácil achar tinta de cabelo em cores não-convencionais, então acabei pintando as unhas com ajuda de uma caneta bic azul estourada num vidrinho de base. Foi na casa da minha avó que passei boa parte do feriado ouvindo no walkman novo uma fita que meu amigo Pedro havia gravado pra mim pouco antes das férias.

Aconteceu mais ou menos assim, eu disse “Pedro, estou de saco cheio de ouvir as mesmas coisas sempre, o que você me recomenda?”, e ele respondeu “Vou te gravar uma fita que eu gosto muito, sempre que estou deprimido coloco isso bem alto e vou jogar basquete, e melhoro na hora”.

E foi assim que, desde as férias entre a oitava série e o primeiro ano, que não consigo parar de ouvir Pixies. Era uma fitinha só de lados-B que acabou me motivando a gravar a obra completa dos caras. Oquei, no finzinho da fita tinha uma gravação tosca tocada pela banda desse meu amigo, com um recadinho singelo que eu lamentei muito quando a fita enrolou no aparelho e eu tive que copiar de outra pessoa,sem o recadinho.

Dizia mais ou menos assim:

“Agora nós vamos tocar uma música, é ‘Need’, do Mudhoney. Espero que você goste e, se você não gostar, espero que você entenda.”

E aí o Loveless entrava com um esporro que marcou uma ótima época da minha vida. Porque foi nessa época que eu comecei a ver shows das bandas dos meus amigos, sabe? E foi aí, bem aí, que o que sou hoje começou a aparecer.

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Considerando que minha banda preferida acabou sem UMA música medíocre em toda a sua discografia (gosto não se discute..), e considerando também o fato de ser a única banda que eu ouvia há tanto tempo sem enjoar, a tatuagem do The Damned no braço de André Nervoso, amigo e então baterista dos Autoramas, me deu forças para encarar as agulhadas do Ivan em 98 ou 99 com aquele “P” alado da capa do “Trompe le Monde”. Depois disso fiz outros desenhos, mas a única banda que tive coragem de tatuar por jamais duvidar de sua qualidade e integridade foi o Pixies mesmo.

Eis que 2004 está aí, continuo ouvindo Pixies e ainda não acredito que até domingo já terei visto minha banda favorita ao vivo. Dane-se que tem faltado grana até para pagar as contas, dane-se que isso significa abrir mão de saídas noturnas, faxineira e livros, dane-se. É minha banda favorita há anos. Se você não for, eu vou entender – mas a minha ausência será imperdoável. Então, amigos, contem comigo: eu vou.

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