Desaniversários

O Zine Vanilli fazia aniversário, e eu era colaboradora assídua.

Gosto deste texto, tem alguma coisa bonitinha e demi-literária nele.

Como update, segue o adendo: finalmente li Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho – na edição comentada e fartamente ilustrada. E, claro, adorei.

 

Desaniversários

já que perdemos a noção de quanto tempo tem em um ano

Quando eu era pequena, tinha um disquinho desses de plástico preto, tamanho compacto, com historinhas de um lado e algumas palavras e frases da história traduzidas para o inglês. Pra dizer a verdade, ainda tenho esses discos – as histórias eram o áudio dos filmes daquele estúdio famoso de desenho animado que também é um parque num estado famoso por sua produção de laranjas.

Nunca entendi qual era a das lições de inglês, já que nunca haviam me servido de nada, decorei as histórias mas só fui aprender as palavras desse cursinho alguns anos mais tarde, e muitas delas já eram obsoletas naquela época. Em compensação, esses disquinhos foram muito importantes para que eu aprendesse duas coisas fundamentais na vida: primeiro, vendo as letras e ouvindo simultaneamente as histórias, aprendi a ler (aprendi sozinha por volta dos três anos de idade, acredite). Segundo, aprendi, na história da Alice, o conceito de desaniversário.

Nunca li Lewis Carrol, mas sei que além de escritor e pedófilo (uma vez conheci um sujeito que gostava de ver fotos de naked lolitas na internet pela beleza e pureza da préadolescente, que ele achava fascinante e dizia que não tinha nenhuma conotação sexual. sei, sei) ele era matemático e Alice Através Do Espelho (que não li, mas, claro, vi o filme da Disney) se utiliza da teoria multidimensional de Georg Bernhard Riemann, também matemático, que viveu a vida toda fudido de saúde e dinheiro e morreu cedo – mas nos deixou o embrião do conceitos dos wormholes, ou buracos de minhoca, que ligariam dimensões e universos um ao outro , bem, Lewis Carrol transformou descobertas recentes da física em ficção, assim como H. G. Wells foi o primeiro escritor a tratar o tempo como uma quarta dimensão indissociável das três dimensões espaciais que conhecemos. Em ‘A Máquina do Tempo’ (que andei lendo esses dias), Wells diz que se você pode andar para frente, para trás, para cima e para baixo no espaço, também pode se deslocar no tempo. Isso faz uns cem anos. Hoje alguns cientistas ainda tentam provar essa possibilidade.

Mas eu ia falar do desaniversário. Comemoramos nossos aniversários de ano em ano, ou seja, de 365 em 365 dias, com exceção dos anos bissextos, quando comemoramos nosso aniversário 366 dias depois do anterior. A passagem dos dias e dos anos é medida pelos movimentos de translação e rotação da Terra, mas ainda assim controlamos essa passagem de tempo com relógios, calendários e agendas para nos assegurarmos de que mesmo os dias mais curtos tenham o mesmo número de horas da véspera, ainda que a noite tenha chegado mais cedo. De qualquer forma, temos dias e noites, um após o outro, sempre, o que nos dá uma unidade de medida de tempo natural, já que as famosas estações do ano já viraram um conceito abstrato em vários lugares do mundo afetados pelo aquecimento global e, dizem, pela alteração no eixo de rotação da Terra.

Vê se entende aonde quero chegar.

Se você perde a noção da hora, você sabe que amanhã você terá manhã, tarde e noite, então você não perde a noção de dia. Mas se você perde o controle dos dias, amigo, você não tem mais a mínima noção de que um ano se passou, uma vez que não tem mais a época de frio, a época de chuva, a época de canícula ou a época das flores. As estações do ano se encolheram, às vezes durando três ou quatro dias, sem critério algum. Se um dia, antes do calendário que conhecemos, alguém comemorava seu nascimento no quinto dia de brumário, que provavelmente era a época das brumas, hoje em dia essa comemoração poderia se dar a qualquer época entre esses 365 dias que se chamam de ano, várias vezes, também sem critério algum.

“Quantas primaveras você comemora este ano?”

Bem, se levar em conta que este ano tivemos dias de verão em julho e dias de inverno semana passada, não sei de mais nada!

Então resolvemos contar nossos aniversários por nossa data de nascimento, e não pela repetição dos acontecimentos do dia – o que é uma boa maneira de ter controle, imagina se eu fosse obrigada a comemorar meu aniversário toda terça-feira de carnaval ou toda oitava chuva do ano? Nunca teria amigos na festa – o que às vezes seria bom, tem aquelas vezes em que tudo está dando errado e as pessoas insistem em te dar os parabéns. Parabéns por quê, cara-pálida?

Por ficar mais velho? Mas ei, envelhecemos a cada fração de segundo, e às vezes envelhecemos muito mais em dois meses do que em um ano. Ou, ainda, dois anos se passaram e você parece mais jovem e mais bem disposto do que no ano anterior – essa história de comemorar apenas a cada 365 dias é balela.

Você tem que se dar os parabéns por estar vivo a cada dia, comemorar cada hora sua em cima deste planeta, ligar para as pessoas que você gosta quando bem entender, e não só porque todo dia 365, a contar pela data de nascimento da pessoa, com ressalvas aos anos bissextos, disseram que você teria que fazer isso. Inclusive você tem todo o direito de ficar de mau humor e não querer falar com alguém, ainda que este alguém ou você esteja, naquele exato momento, comemorando 365 x n dias neste planeta esquisito.

    *

Tenho comemorado meus desaniversários tentando atravessar espelhos. E não, isto não é uma metáfora, mas sim assunto para o próximo texto.

No entanto, como cheguei atrasada como um coelho apressado para a comemoração de aniversário do zine, só terei três horas de sono, o que adia minha comemoração de mais um desaniversário para quando o aniversário acabar.

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