Apenas mais uma garota católica

Este texto saiu no Zine Vanilli, uma revista on-line bacaninha editada pela Priscila Barreto, de SP. A única “linha editorial” do Vanilli é “mulheres cujos textos a Priscila já tenha lido e gostado” – neste, falei sobre minhas impressões sobre religião, assunto polêmico e, bem, relendo o texto, percebo que GENERALIZEI. Mas tudo bem, em zine você pode ser mais enfática em suas opiniões, certo? Vamos lá, espero que você curta.

Apenas mais uma garota católica

Na cola do filme do Mel Gibson

Minhas lembranças mais assustadoras de infância passam, certamente, pelas procissões ali em Santa Rosa, na rua que passava por trás do Salesiano. Tudo escuro, velas que esquentavam nossas mãos, aquelas senhoras entoando cânticos de louvor ao senhor, cada uma em um tom e todas uivando quando queriam soar como cantoras líricas. A Igreja pré-Páscoa toda coberta de roxo e todo aquele papo de ‘o ovo foi escolhido como um símbolo da vida’ – mas no domingo, o que se via era a retirada dos panos roxos e a exposição daquelas imagens de sofrimento.

Aos doze anos, aceitei Jesus por livre e espontânea.. pressão, vá lá. Afinal, aquele era meu ritual de inclusão na sociedade, me fazia parte da família, eu deixava de ser a única prima que não era nem batizada. Escolhi um casal de padrinhos (uma tia que queria me ver de todo jeito naquele lugar e um primo que fez uma piadinha tipo ‘vou ser seu padrinho’ e pá, foi ele), fiz umas aulas de catequese que não me transformaram numa carola, mas que por algum motivo eu tinha que fazer para satisfazer os egos da família. Ora, mal não iria fazer. Posso arder nas chamas do inferno depois desta confissão, mas aquela foi a primeira e a última vez que coloquei uma hóstia na boca. Pelo menos minhas tias acalmaram os ânimos e eu descobri como era aquilo.

Muita celeuma por nada demais, na verdade.

Aos dezoito anos, depois de uns bons seis anos sem assistir a uma missa (salvo casamentos), tive a oportunidade de ver a cena impressionante da Páscoa em outro país, numa catedral enorme, provavelmente com centenas de anos a mais do que a basílica de N. Sra. Auxiliadora, com milhares de pessoas presentes e, mesmo sendo em um idioma com o qual eu tinha pouca familiaridade, aquele espetáculo conseguiu me impressionar mais ainda. Igreja Católica Apostólica Romana é isso, é opulência, é grandiosidade, é impressionar o fiel para que ele tema a Deus – a igreja francesa me conquistou pela quantidade. Mas ainda assim, Igreja pra mim ainda é sinônimo de casamentos (alheios), missas de sétimo dia (alheias, óbvio, já que a minha ainda não aconteceu) e pessoas que cultuam o sofrimento mesmo quando alegam celebrar a vida, santificam seus mártires como um pedido de desculpas por não terem coragem de fazer igual (“olha, eu não vou largar o conforto da minha vidinha e sair por aí pregando o amor e a paz como você fez, mas sua imagem terá um lugarzinho especial na minha estante e eu direi que sigo seus ensinamentos, embora nunca tenha abraçado alguém”) e declamam todas aquelas orações tão apaixonadamente que.. bom, pode reparar que as marcações são sempre as mesmas, nos mesmos lugares, no mundo inteiro, como um poema universalmente traduzido e decorado, mas jamais compreendido. Afinal, as pausas para respirar são sempre as mesmas, a cada verso. Ah, sim, e que cantam “prova de amor maior não há/ que doar a vida pelo irmão” e que até seriam capazes de dar a vida por outra pessoa, sim.

Não porque realmente sintam que devam fazer isso, mas porque passaram a vida inteira cantando isso e aprendendo, via versinhos, que “dar a vida pelo outro é a maior prova de amor”. Como alguém que decora uma fórmula matemática numa daquelas aulas de decoreba, se esquece de uma variável e pronto, não sabe mais fazer conta alguma.

Aceitar Jesus, então, acaba sendo decoreba de trechos da Bíblia e de músicas, e as pessoas se esquecem de sentir. Os fiéis cultuam o temor a Deus, não a felicidade e a fertilidade e outros símbolos da vida, e esperam ser felizes após a morte, não aqui, nessa existência. Respeito aquela gente, respeito seus rituais, acho beleza (uma beleza mórbida, é verdade) em seus espetáculos e datas comemorativas, mas não, obrigada. Por favor, não me perguntem por que, depois da minha primeira comunhão, eu nunca mais fui à missa.

Anúncios

Um pensamento sobre “Apenas mais uma garota católica

  1. É uma pena ter sido sua última missa! De fato, para muitos os ritos não passam de repetição, mas para outros, cada momento representa renovação e fortalecimento para a busca de caminhos e sim, transformar este mundo. A juventude católica(eu sou mais uma)não vive encarcerada pelas paredes de suas igrejas, mas busca nela a razão para construir algo além do individualismo cultuado nesta desesperança pós-moderna. Retificando: não sou mais uma católica, mas a católica que busca em Deus a coragem pra amar mais o meu irmão. Fique em Paz!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s