Ícones brega transformados em cult

Este texto foi originalmente publicado em outubro de 2003 na Revista Mood (disponível aqui). A pauta era exatamente o título: ícones brega transformados em cult. Porque moda, eles nunca deixaram de ser – seja em milhões de radinhos AM, seja aqui em casa. Mas, de uma hora pra outra, alguém decidiu que gostar de música brega era cool, virou moda também entre quem nunca ligou o rádio numa emissora AM na vida. E aí?

 

 

Confesso que demorei para escrever esse texto e ia demorar mais ainda. Mas um fato triste e deprimente me aconteceu nessa madrugada: preciso terminar um trabalho e tem uma festinha rolando na vizinhança. Isso me desconcentra totalmente, principalmente porque toca coisas que eu gosto – tem aquela música legal do Magal. Tem Gretchen. Tem Jane e Herondy. E confesso que estou com uma certa raiva – até pouco tempo atrás, pouca gente admitia que curtia esse tipo de som (que, convenhamos, é do cacete). Hoje não existe festa descolada sem aquela seqüência de música brega.

Há controvérsias sobre as origens do termo. Caetano Veloso cita, em seu livro “Verdade Tropical” (pausa – tem uma trintona histérica berrando ao som de “Conga Conga Conga”, qual é o problema? Há exatos 5 anos, antecipei esse hype e ninguém falou nada, hah hah hah), que “brega” era uma gíria baiana pra designar puteiro. Em outro lugar, já ouvi dizerem que “brega” era gíria de empregada doméstica, e posteriormente foi usada para designar “coisas que elas gostavam”. Que seja: música brega, hoje, é coisa de elite. Sua prima patricinha perde a linha dançando Amado Batista na festinha da faculdade, enquanto a dona que faz faxina na casa dela se delicia com “Epitáfio”, dos Titãs. Sinal dos tempos, broto.

Ruim? De jeito nenhum. Os cantores ditos bregas costumam ter um vozeirão que não se ouve mais por aí. De deixar Stephen Malkmus se roendo de inveja. Aquela linha de baixo que faz você reconhecer uma canção brega é ‘catchy’ mesmo, confesse, sua banda está louca para fazer um refrão que grude na cabeça dos outros de tal forma que no próximo show, todo mundo vai cantar junto. Mal produzido? Se liga, mal produzidas são as bandas indies que seguem uma proposta mais “lo-fi”. Mister Sam é um dos melhores produtores já nascidos em terras latinas (eu ia dizer “brasileiras” mas lembrei que, como o vocalista do Brazilian Genghis Khan, ele é argentino), capaz de transformar uma mulher cujo único talento é rebolar a poupança num sucesso de vendas de discos (onde não aparecia rebolando), capaz de transformar um cantorzinho de bossa nova numa máquina quente de sangue latino tirando onda de cigano, audacioso o suficiente pra ser “o homem por trás dos 3 Patinhos”. É, tem que ter audácia pra chegar a esse ponto sem perder a classe. Analisando por esse ângulo, entendo perfeitamente a transformação da cafonice em objeto de culto, e ai de quem chamar música brega de “trash”: as músicas são boas mesmo!

Entendam: naquela época, final dos anos 70 e começo dos 80, tirando a estrutura “três frases repetidas em inglês, francês e espanhol” da Gretchen, as letras eram muito melhores que as que tocam por aí hoje – e por “melhores”, que fique entendido que tinham um mínimo de estrutura narrativa e vocabulário razoavelmente variado, além de realmente tocarem o coração do ouvinte. Eu não quero que me parem e digam que eu sou purpurinada, sou muito mais ser a ciganinha dona do seu coração – é uma figura de linguagem um tanto criativa, digamos. Existe homenagem mais bonita e emocionante do que “Revelação de Um Sonho”, de Carlos Alexandre, um tributo ao falecido Evaldo Braga? A inacreditável “Cadeira de Rodas” dá de mil a zero em qualquer “música para minorias femininas” do Rei Roberto em matéria de fetiche! E as canções em homenagem às tantas domésticas, secretárias (“Anúncio de Jornal” é fantástica), ciganas e até às garotas que, ingenuamente, caíram na vida (“Funcionária da Calçada” e “Secretária da Beira do Cais” são exemplos perfeitos dessa ingenuidade feminina que faz com que a gente se foda)! O mesmo motivo que fez com que uma música de amor de estrutura simples como “Anna Julia” caísse no gosto popular em época de popozudas e preparadas faz com que todas essas músicas tão fáceis-portanto-assimiláveis e de temáticas universais (amor e suas variações pé na bunda e obstáculos físicos, sociais ou de tempo) voltem com força total em época de guerras e falta de respeito – ah, se todos os homens cantassem suas mulheres como um Jerry Adriani, que dizia “seus olhos são estrelas que cintilam com fulgor”! Isso sim é classe!

Não é uma questão de modinha retrô, mas é que o nível hoje está tão baixo – seja em termos de harmonia, falta de linhas melódicas ou letras pouquíssimo criativas – que qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento musical se volta para essas músicas “bregas” e descobre pérolas do cancioneiro popular brasileiro – esqueça os clichês tipo “Fuscão Preto” e procure a explanação de Reginaldo Rossi (Tô Doidão), as letras freaks de Jhosep (“Coisa de Índio”), a guitarra metal antes do metal virar metal da introdução de “Bilu Tetéia”, do mestre Mauro Celso (devidamente cantado por Sérgio Mallandro, mas esse Mallandro é outra história, é trash no sentido “lixo” da palavra) ou a sinceridade de Zé Cláudio (qualquer uma, qualquer uma!). Talvez seja por isso que o brega está aí, com força total – e nem dá pra dizer que “a moda voltou” porque nunca foi moda, sempre foi tipo de música para se ouvir no radinho de pilha do quarto da empregada, sempre vendeu horrores mas nunca dominou a grande mídia, que sempre renegou o gênero – muito provavelmente porque nasceu logo depois da bossa nova, que até hoje é a queridinha da crítica especializada, coisa de burguesinhos intelectuais da zona sul carioca (nada contra, essa que vos escreve adora Nara, ama João, mas é isso aí mesmo) que inventaram uma batida realmente gostosa, brasileira pra caramba e mesmo assim comparável ao jazz, e botaram a música do povão no chinelo. Havaianas. Daquelas amarelas com palmilha branca.

Olha só, não sei se você sabe, mas Havaianas é a maior moda em Paris nesse verão. E, pra não dizer que eles eram alienados, acabou de sair um livro afirmando que os compositores ditos bregas foram os mais censurados na época da ditadura – quem mais além de Odair, com aquela pinta de vocalista dos Strokes, poderia lançar um papo tão subversivo, mandando sua garota parar de tomar a pílula?

É por isso que eu ajoelho no milho e digo Aleluia, Gretchen. Chegou a hora e a vez do pessoal que ia à Discoteca do Chacrinha ter seu reconhecimento merecido. Está na hora de descobrirem Zé Cláudio, Fernando Lélis, o som ‘brega de boutique’ de Emílio e Mauro.

E você, vai ficar aí dizendo que Gilliard é ruim baseado numa única música de sucesso? Dê ouvidos ao dj da sua festa de formatura. Pelo menos você não pode dizer que não se divertiu – nem que seja rindo daquele seu primo dançando feito o Magal. Mas agora que brega é cult, ele pode. Sinal dos tempos, broto.

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